Domingo, Maio 20, 2012
Reconhecimento municipal é apenas o primeiro passo
O reconhecimento oficial da Festa da Bugiada como património cultural imateral de interesse municipal, que aconteceu na reunião da Câmara Municipal de Valongo na passada quinta-feira constitui um gesto e um momento de evidente interesse histórico local. Mas representa apenas o primeiro passo de um processo marcado por uma ambição bastante mais larga: o reconhecimento nacional e internacional.
Isso mesmo se depreende do texto da deliberação, que este blog conseguiu obter e que aqui partilha com os leitores interessados. Vejamos o que se refere nesse documento:
a) Em primeiro lugar, a Câmara não apenas aprovou aquela deliberação por unanimidade como unanimemente decidiu submeter o assunto a uma próxima reunião da Assembleia Municipal para que, se assim o entender, este órgão se associe também à deliberação já tomada.Este último passo assume já uma dimensão política, porquanto supõe que o Governo português dê a sua anuência para que o processo seja apresentado na UNESCO. Mas o essencial é, certamente, o valor que encerra a Festa objecto deste processo e o modo como esse valor é vivido, concretizado e reconhecido pela comunidade local - em Sobrado, antes de mais, mas também no Município.
Esta decisão encerra um significado especial. De facto, esta possibilidade, prevista na lei, permitirá uma tomada de consciência mais alargada e participada da relevância deste património imaterial e, associando-se o órgão à deliberação, dar-lhe-á uma dimensão e significado ainda maiores;
b) Por outro lado, com base no reconhecimento no plano municipal, poder-se-á passar para o plano nacional, aravés do pedido de inventariação da Bugiada como Património Cultural Imaterial a ser elaborado para apresentação ao Instituto dos Museus e Conservação.
c) Finalmente, como se refere no texto da deliberação, "o Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial permite corresponder a um dos requisitos fundamentais impostos pela Convenção da UNESCO, para possível candidatura à Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade".
Procuraremos, em próximos textos, reflectir sobre os valores intrínsecos a esta festa, assim como sobre aqueles aspectos que tornam a Bugiada e Mouriscada muito mais do que uma mera tradição que se repete todos os anos.
Etiquetas: Câmara Municipal de Valongo, Festa - aspectos gerais, Património da humanidade
Quinta-feira, Maio 17, 2012
Festa de S. João de Sobrado reconhecida como património imaterial municipal
A notícia é dada pelo site do Jornal Novo de Valongo:
A Câmara Municipal de Valongo, aprovou, por unanimidade, a celebração da Bugiada como Património Imaterial Municipal. Foi na reunião desta quinta feira e na discussão do assunto foram realçados vários aspetos importantes deste festa diferente e realçada a colaboração entre as pessoas da freguesia de Sobrado. A necessidade de criar condições para que as pessoas acompanhem toda a bugiada foi outro tema abordado.
Etiquetas: Festa - aspectos gerais, Iniciativas, Património da humanidade
Quarta-feira, Maio 16, 2012
Maratona Fotográfica do Município dedicada à Bugiada
A Divisão de Cultura do Município de Valongo acaba de apresentar a iniciativa “Valongo: terra de tradições – 1ª Maratona Fotográfica”, dedicada, nesta edição inaugural, ao tema da Bugiada. O objetivo é, nomeadamente, "sensibilizar os participantes para as tradições do Concelho" e "contribuir para o aumento do espólio documental concelhio no que toca às suas tradições de base".Podem participar até 20 interessados, desde que sejam maiores de 16 anos e se inscrevam, no site do Município ou presencialmente na Divisão de Cultura da Câmara, até 14 de Junho.
Segundo as Normas de Funcionamento desta Maratona Fotográfica dia 20 de Junho, à tarde, os participantes deverão levantar a respetiva credencial e, no dia da Festa,24 de Junho, devem de apresentar o comprovativo de inscrição, o documento de identificação (cartão de cidadão ou bilhete de identidade) e uma declaração assinada.
Os prémios são constituídos por materiais fotográficos e o júri é composto por "três pessoas de reconhecida idoneidade e competência na área da fotografia, para além de um membro da Comissão de Festas de S. João de Sobrado". A selecção e classificação das fotos terá por base, "designadamente, a qualidade técnica e a criatividade".
Os participantes não deverão vedar zonas ou interditar passagens e devem seguir todas as instruções dadas pelos responsáveis pelas acções da Bugiada assim como pelos organizadores da Maratona.
Ficha de inscrição: AQUI
Comentário:
O comentário que aqui publiquei ontem não podia vir mais a propósito (ver, a propósito, os comentários que estão a ser feitos na página do Facebook sobre a Festa).
Entendo que esta iniciativa da Divisão de Cultura da Câmara Municipal é positiva. Os prémios não são especialmente convidativos, mas também é verdade que os tempos que correm não permitem grande desafogo económico. Além disso, não será pelo valor dos prémios que os amantes da arte fotográfica irão ou não aderir a esta oportuna iniciativa.
É também de sublinhar algum cuidado, que se observa no Regulamento, quanto às condições em que as fotos vão poder ser feitas. Mas conviria - é uma sugestão - que, a virem a ser definidas regras para a captação de sons, imagens fotográficas e de vídeo, que essas normas sejam distribuídas pelos concorrentes desta Maratona. Isso será facilmente conseguido através da colaboração entre a Casa do Bugio, a Comissão de Festas e os organizadores deste evento.
Etiquetas: Festa de 2012, Imagens, Iniciativas
Terça-feira, Maio 15, 2012
Há um assunto sobre o qual temos de conversar e decidir
É verdade: há um assunto relacionado com a Festa sobre o qual temos de conversar e decidir. Diz respeito às condições em que se desenrolam as danças, particularmente aquelas que decorrem na zona do Passal. Refiro-me à presença de câmaras de vídeo e máquinas fotográficas.
Algumas constatações:
Parece-me que seria necessário que nos pronunciássemos sobre este assunto. Que déssemos respostas sobre se sim ou não devemos impedir que no meio da Bugiada e da Mouriscada andem 'civis' e em que condições. Também a Casa do Bugio, o Conselho de Velhos e os Mourisqueiros deveriam dar o seu ponto de vista nesta matéria. Sempre com o objectivo de termos uma Festa de mais qualidade, que dê ainda mais gosto ver e viver. Quem quer dar a sua opinião?
Algumas constatações:
- nos anos mais recentes, com a vulgarização das máquinas de registo de imagens, aumenta o número das pessoas que quer ficar com recordações da festa. Isso, em si mesmo, é positivo. A festa é rica e tem um caráter público, pelo que não se pode nem deve impedir ninguém de fotografar ou filmar.
- dito isto, também é preciso dizer que não é bom nem para a Festa nem para quem nela participa que haja pessoas 'civis' que se metem no meio das danças, a ponto de quase já não ser hoje possível captar imagens da Festa sem apanhar intrusos que estão onde não deviam estar.
- Devem ou não ser instituídas regras sobre as condições em que se podem colher imagens?
- Essas regras devem aplicar-se a toda a gente ou, por exemplo, os jornalistas em serviço de reportagem devem ter um regime de excepção?
- Em qualquer dos casos, deverá haver ou não a necessidade de obter uma credenciação prévia, de modo a identificar quem está a trabalhar e o órgão de comunicação para quem trabalha?
- Tais regras devem ser gerais, isto é, aplicar-se a todas as danças, desde a manhã até à noite, ou apenas às que decorrem no principal espaço da Festa, ou seja, na zona do Passal?
- As regras devem aplicar-se em quaisquer circunstâncias ou apenas quando Bugios e Mourisqueiros estiverem a dançar?
- Que poderes devem ser atribuídos aos Bugios e Mourisqueiros na aplicação das regras de captação de imagens? E à Comissão de Festas?
- Como fazer para que Velho e Rei, Guias e Rabos e outros participantes, assim como a população em geral, incluindo visitantes, sejam informados dessas normas, caso venham a ser instituídas?
Parece-me que seria necessário que nos pronunciássemos sobre este assunto. Que déssemos respostas sobre se sim ou não devemos impedir que no meio da Bugiada e da Mouriscada andem 'civis' e em que condições. Também a Casa do Bugio, o Conselho de Velhos e os Mourisqueiros deveriam dar o seu ponto de vista nesta matéria. Sempre com o objectivo de termos uma Festa de mais qualidade, que dê ainda mais gosto ver e viver. Quem quer dar a sua opinião?
Etiquetas: Festa - aspectos gerais, Imagens, Media, Reflexões e interpretações
Quarta-feira, Maio 09, 2012
Bibliografia e webgrafia sobre a Festa da Bugiada
Algumas notas prévias sobre esta primeira tentativa de reunir informação escrita sobre a Festa de S. João de Sobrado:
- trata-se de um trabalho em curso, aberto e, por conseguinte, não acabado;
- reúne obras especificamente sobre a festa sobradense ou de que ela é parte constituinte, mas também algumas obras em que a mesma festa é objeto de referências mais ou menos detalhadas;
- incluem-se duas teses (uma de doutoramento e outra de mestrado) que não se encontram publicadas;
- há também referências a textos que só se encontram disponíveis na Internet.
- não se incluem aqui notícias de jornal ou de revistas de divulgação.
Todos os contributos para completar esta lista são, naturalmente, muito bem recebidos.
- Alford, V. (1933) “Midsummer and Morris in Portugal”, in Folklore, Vol. 44, n. 2. pp. 218-235
- Alford, V.; Gallop, R. (1935) The Traditional Dance. London: Methuen & Co. Ltd (with illustrations of Bugiada)
- Alge, B. (2006) Der ‘Mouro’ im Kollektiven Gedächtnis - Eine Studie von Tanzdramen in religiösen Festen Nordportugals. Tese de doutoramento em Etnomusicologia na Universidade de Viena (Áustria) (não publicada).
- Alge, B. ( 2007) “O ‘mouro’ como elemento comparativo em duas performances de mourisca em Portugal”, Revista de Trabalhos de Antropologia e Etnologia, 47/1-4, 71-92
- Alge, B. (2006) “A memória colectiva religiosa em danças dramáticas de Penafiel, Sobrado e Braga”, Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, nº 18, Lisboa: Edições Colibri, 2006, pp. 403-423
- Araújo, M.C.C (2004). Bugios e Mourisqueiros: o Outro Lado do Espelho. Dissertação de mestrado. Porto: Faculdade de Letras (não publicada)
- Gallop, R. (1936) Portugal, a Book of Folk Ways. Cambridge: Cambridge University Press, pp. 171 a 175
- Loução, P. A. (2002) A Alma Secreta de Portugal. Lisboa: Ésquilo, 4ª edição, (capítulo sobre a festa: pp. 391-404)
- Machado, P. C.; Ferreira, H. (2002). Bugiada – Valongo. Mafra: Elo, Publicidade e Artes Gráficas.
- Pereira, B. E. (1982) “Les Maures e les Bugios de Sobrado (Valongo)”, Revue de la société d’archeologie et des amis du musée de Binche, nº 5, pp. 34-44.
- Pereira, B. E (1973) Máscaras Portuguesas. Lisboa: Museu de Etnologia de Portugal
- Pinto, M. (2009) S. João de Sobrado - Valongo” - capítulo do livro Máscara Ibérica II. Lisboa: Progestur (edição bilingue português-espanhol), pp. 204-225.
- “Festa da Bugiada”. Wikipedia, edição portuguesa (URL: http://pt.wikipedia.org/wiki/Festa_da_Bugiada).
- Pinto, M. (2000) “A Bugiada: Festa, Luta e Comunicação”. Comunicação apresentada ao IV LUSOCOM – Encontro Lusófono de Ciências da Comunicação, realizado em São Vicente, SP/ Brasil, de 19 a 22 de Abril de 2000, subordinado ao tema Comunicação Intercultural - 500 anos de mestiçagem luso-afro-ásio-brasileira (URL: http://bocc.ubi.pt/pag/pinto-manuel-bugiada.html).
- Pinto, M. (1985). “As Tradições mais Relevantes no Concelho de Valongo”, Vallis Longus, Revista Científica Anual da Secção de História e Arqueologia dos Serviços Municipais de Cultura e da Câmara Municipal de Valongo , Vol. 1, Agosto 1985, pp. 31-35.
- Pinto, M. (1982) Bugios e Mourisqueiros – Subsídios para o Estudo da Festa de S. João de Sobrado. Valongo: Edição da Associação para a Defesa do Património Cultural do Concelho de Valongo (imagens do repórter fotográfico Armando Moreira).
- Pinto, M. (2004 …) Bugios e Mourisqueiros, blog com mais de 300 posts, muitos dos quais de natureza reflexiva ou incorporando levantamento de matéria original sobre a festa e contando com mais de 35 mil visitas, esmagadoramente de Portugal e dos países de emigração (http://bugiosemourisqueiros.blogspot.com).
(Crédito da foto: Marjoke Krom)
Etiquetas: Fontes, Investigação, Memória da Festa
Sexta-feira, Abril 27, 2012
"Vamos bugiar" - mais uma iniciativa da Comissão de Festas 2012
A Comissão de Festas de S. João de Sobrado promove no próximo dia 13 de Maio o 2º Rally Paper TT, designado "Trilhos de S. João" e no qual se podem inscrever, até 11 de Maio, jipes e motos. O rally será seguido de comezaina com porco no espeto, aberto a todos os que se inscreverem.
(clicar na imagem para ampliar).
(clicar na imagem para ampliar).
Etiquetas: Festa de 2012
Sexta-feira, Abril 20, 2012
Assalto à Casa do Bugio - prejuízos de muitos milhares de euros
Na noite de ontem para hoje, desconhecidos rebentaram uma porta do edifício-sede da Casa do Bugio, levando objetos cujo valor não está ainda calculado em pormenor, mas que se eleva seguramente acima dos 10 mil euros.
Logo pela manhã, um telefonema da escola de formação profissional que se encontra situada a escassos metros alertava responsáveis da casa do Bugio para o facto de haver uma porta com sinais de ter sido forçada. Uma vez no local, constatou-se que os assaltantes visaram apenas objetos metálicos em inox, nomeadamente talheres (mais de setecentos), travessas (mais de duzentas), terrinas e conchas da sopa (largas dezenas) e o cobre de um cilindro eléctrico de água quente.
A GNR foi chamada ao local, tendo posteriormente passado pelo edifício uma brigada especializada na recolha de outros elementos de investigação.
Escusado será dizer que a Direção da Casa do Bugio ficou consternada com a situação que ali foi encontrar.
A cerca de dois meses da Festa da Bugiada e Mouriscada, vai ser necessária uma solução de emergência que permita fazer face aos encargos da aquisição de equipamento que substitua o que foi roubado e permita consertar tudo aquilo que foi destruído. No entanto, segundo nos disse o presidente da Associação, "não existe disponível a verba necessária, do que foram despendidos, nos últimos anos, muitos milhares de euros na consolidação da estrutura do edifício e em outros melhoramentos".
Com o S. João à porta, se uma solução não fosse encontrada ficaria comprometido o jantar que é tradicionalmente servido pela Comissão da festa aos Bugios e aos Mourisqueiros, para não falar do lanche dos tremoços, no dia do último ensaio.
Etiquetas: Casa do Bugio
Segunda-feira, Abril 09, 2012
Luís Loira é o Velho deste ano; já foi eleito o de 2015
Em reunião havida há dias para eleger o Velho da Bugiada da Festa de 2015, os antigos Velhos da Bugiada escolheram Carlos Vicente, da Rua da Costa.
Como já informamos, em reunião anterior desta estrutura, foi decidido antecipar em três anos o conhecimento daquele a quem cabe exercer a função mais destaca na Bugiada. Assim, o Velho deste ano será Luís Loira, a quem se seguirá, em 2013, Moisés Gândara e, em 2014 Fernando Dias.
Ficou, entretanto, prevista uma reunião para o fim do corrente mês, na qual os ex-Velhos vão reflectir e pronunciar-se sobre o modo como têm decorrido as danças, de modo a conferir-lhes uma dignidade e qualidade estética cada vez maior.
Como já informamos, em reunião anterior desta estrutura, foi decidido antecipar em três anos o conhecimento daquele a quem cabe exercer a função mais destaca na Bugiada. Assim, o Velho deste ano será Luís Loira, a quem se seguirá, em 2013, Moisés Gândara e, em 2014 Fernando Dias.
Ficou, entretanto, prevista uma reunião para o fim do corrente mês, na qual os ex-Velhos vão reflectir e pronunciar-se sobre o modo como têm decorrido as danças, de modo a conferir-lhes uma dignidade e qualidade estética cada vez maior.
Domingo, Abril 08, 2012
Sobradenses voltam a juntar-se pela sua festa
A Comissão de Festas de 2012 volta a desafiar os sobradenses (e não só) para uma feijoada à transmontana, que terá lugar no dia 15, às 13 horas, na Casa do Bugio. Tempo para conviver (até porque se promete animação) e, por essa via, contribuir para a organização da festa deste ano.
Sábado, Fevereiro 25, 2012
Sinais locais da projeção da Festa
Sinais da repercussão da Festa de S. João de Sobrado no plano local/municipal:
(Se souber de outras referências, comunique-as por e-mail, pf)
- Feriado Municipal: S. João
- Unidade de Saúde Familiar de Sobrado: São João
- Rua principal (e mais extensa) de Sobrado: S. João
- Agrupamento Vertical de Escolas de Sobrado: S. João
- Jornal do Agrupamento de Escolas: O Bugio
- Principal festa de Sobrado: S.João [Padroeiro: Santo André]
Domingo, Fevereiro 19, 2012
Uma demissão "inabalável" da Comissão Administrativa da Junta, em 1937
Um caso que pode ter a ver com a festa de S. João
A história da Festa de S. João de Sobrado está, em grande medida, por fazer. E, deve dizer-se, não é tarefa fácil, já que não é uma tradição que se apoie, ao que se sabe, em grandes elementos escritos, a começar pela lenda, que é transmitida, em versões diferentes, de geração em geração. Mas difícil não quer dizer impossível e a verdade é que os arquivos onde se encontra a documentação sobre Sobrado ainda não foram passados a pente fino de forma sistemática.
Um desses sítios é o Arquivo Histórico Municipal de Valongo, que procedeu ao Inventário de grande parte do fundo documental da Junta de Freguesia de Sobrado. E foi lá, precisamente que os técnicos daquele serviço encontraram um documento que pode ter interesse para a História da Festa de S. João de Sobrado. Trata-se de um ofício da Comissão Administrativa da Junta, datado de 27 de Junho de 1937 e relativo a uma reunião daquele órgão realizada no mesmo dia. É dirigido ao Administrador do Concelho e tem por objetivo nada mais nada menos do que pedir a demissão coletiva do órgão.
Essa medida drástica é tomada, salienta o ofício, "como protesto contra a atitude de um empregado dessa Câmara Municipal que teve a ousadia inqualificável de dar voz de prisão ao seu presidente".
A continuação do texto da missiva explica as circunstãncias e justifica a demissão:
NB - A grafia de algumas palavras do documento foi aqui atualizada.
Um desses sítios é o Arquivo Histórico Municipal de Valongo, que procedeu ao Inventário de grande parte do fundo documental da Junta de Freguesia de Sobrado. E foi lá, precisamente que os técnicos daquele serviço encontraram um documento que pode ter interesse para a História da Festa de S. João de Sobrado. Trata-se de um ofício da Comissão Administrativa da Junta, datado de 27 de Junho de 1937 e relativo a uma reunião daquele órgão realizada no mesmo dia. É dirigido ao Administrador do Concelho e tem por objetivo nada mais nada menos do que pedir a demissão coletiva do órgão.
Essa medida drástica é tomada, salienta o ofício, "como protesto contra a atitude de um empregado dessa Câmara Municipal que teve a ousadia inqualificável de dar voz de prisão ao seu presidente".
A continuação do texto da missiva explica as circunstãncias e justifica a demissão:
"Porque há longos anos não cobrava esse Câmara direitos sobre os taberneiros, padeiros, doceiros, etc que ocorriam [sic] [a]os arraiais das romarias que no Largo do Passal, desta freguesia se realizam, entendeu o Snr Presidente desta Junta perguntar ao aludido funcionário quem o havia mandatado [para] proceder a tal cobrança, tendo sido nessa altura como dissemos insultado e ameaçado.Não obstantea muita consideração pela pessoa de V. Ex, é esta a resolução inabalável desta Comissão, tanto mais que sendo este Largo pertença exclusiva desta Junta, não compreendemos ou compreendemos mal que essa Câmara cobre direitos, nos arraiais que aí se realizam sem prévio conhecimento da mesma Junta.A Bem da Nação...".Não sabemos se o pedido de demissão foi aceite ou se houve explicações e cedências e, consequentemente, recuo sobre a posição assumida. Deste documento, duas conclusões se podem, entretanto, extrair:
- Apesar de o motivo imediato ter sido a arrogância e (aparentemente) má-educação do funcionário municipal, no modo como executou a ordem recebida, o fundo do problema parece ser uma imposição do Administrador do Concelho numa matéria em que a Junta entendia dever, pelo menos, ter sido ouvida;
- O facto de o pedido de demissão ter sido tomado apenas três dias depois do dia de S. João aponta fortemente no sentido de que o facto que o motivou ocorreu no dia da Festa da Bugiada e Mouriscada e poderá (ou não) sugerir que a festa adquirira alguma projeção, do ponto de vista do número dos tendeiros e tasqueiros que se instalavam no Largo do Passal.
NB - A grafia de algumas palavras do documento foi aqui atualizada.
Quarta-feira, Fevereiro 15, 2012
"Rituais de Inverno com Máscaras"
Para quem, nos próximos dias, andar pelos lados de Trás-os-Montes, fique sabendo que poderá visitar em Bragança a exposição "Rituais de Inverno com Máscaras". Está patente até dia 21 no Museu Abade de Baçal.
Segunda-feira, Fevereiro 13, 2012
As "Entrajadas" e as máscaras
A Comissão de Festas de S. João de Sobrado, com o apoio da Junta de Freguesia, promove no dia de Carnaval, à noite, um "Concurso de Entrajadas", que se junta, assim, ao ritual da Queima do Velho.
É de enaltecer a recuperação de uma palavra antiga que outrora se usava em Sobrado em duas circunstâncias. A primeira era precisamente no dia de Carnaval (e, não raro, também no Domingo Gordo), em que mascarados percorriam os caminhos e estradas da freguesia, vestidos de forma, digamos, anormal: homens vestidos de mulheres e vice-versa, pessoas com roupas do avesso, outras a imitar gente fina ou, ao contrário, maltrapilhos, etc.
A segunda situação em que se recorria - e continua a recorrer ao termo "entrajadas" é precisamente na Festa de S. João de Sobrado. É também protagonizada por mascarados e refere-se às cenas e representações de crítica social de situações escondidas, de acontecimentos anormais ou de problemas sentidos pela comunidade local.
Poucos dicionários trazem este termo e quando a trazem não é como substantivo mas como verbo. Dar realce à palavra é, assim, uma forma de preservar o património (neste caso linguístico) de Sobrado.
E vem a talho de foice: seria ótimo que se aproveitasse estas ocasiões para ensaiar a construção de máscaras mais originais. Se quisermos que a Bugiada venha a ser classificada como património imaterial vai ser necessário cuidar desse aspeto. A entrajada carateriza-se não apenas pelo vestuário, mas também pela qualidade e originalidade da máscara.
É de enaltecer a recuperação de uma palavra antiga que outrora se usava em Sobrado em duas circunstâncias. A primeira era precisamente no dia de Carnaval (e, não raro, também no Domingo Gordo), em que mascarados percorriam os caminhos e estradas da freguesia, vestidos de forma, digamos, anormal: homens vestidos de mulheres e vice-versa, pessoas com roupas do avesso, outras a imitar gente fina ou, ao contrário, maltrapilhos, etc.
A segunda situação em que se recorria - e continua a recorrer ao termo "entrajadas" é precisamente na Festa de S. João de Sobrado. É também protagonizada por mascarados e refere-se às cenas e representações de crítica social de situações escondidas, de acontecimentos anormais ou de problemas sentidos pela comunidade local.
Poucos dicionários trazem este termo e quando a trazem não é como substantivo mas como verbo. Dar realce à palavra é, assim, uma forma de preservar o património (neste caso linguístico) de Sobrado.
E vem a talho de foice: seria ótimo que se aproveitasse estas ocasiões para ensaiar a construção de máscaras mais originais. Se quisermos que a Bugiada venha a ser classificada como património imaterial vai ser necessário cuidar desse aspeto. A entrajada carateriza-se não apenas pelo vestuário, mas também pela qualidade e originalidade da máscara.
Etiquetas: Estardalhadas, Máscaras, Património da humanidade
Sábado, Janeiro 28, 2012
"Queima do Velho" - iniciativa da Comissão de Festas2012
Vai ser no dia 21 de Fevereiro, dia de Carnaval, às 21 horas, no Passal. A Queima do Velho, uma tradição que vem ganhando maior dimensão nos últimos anos, volta a realizar-se como forma de festejar o Carnaval, de conviver e de angariar fundos para a organização da festa de S. João deste ano. A iniciativa é da Comissão de 2012 e é o seu primeiro evento deste ano.
Etiquetas: Comissão de Festas, Festa de 2012
Quinta-feira, Janeiro 26, 2012
Mouriscada: “Um dos mais notáveis rituais que sobrevivem na Europa moderna"
Neste post, gostaria de sublinhar alguns aspectos interessantes e curiosos que ressaltam do relato e análise da Festa de S. João de Sobrado feita por Rodney Gallup, no livro "Portugal, a Book of Folk Ways".
Importa observar, antes de mais, que o autor só viu uma parte da festa. Chegando a Sobrado, naquele S. João de 1932 (vai fazer agora 80 anos), pelas 18 horas, decorria aquela que hoje é conhecida como a Dança do Doce. A festa, tendo um certo aparato, era uma tradição pacata, não mobilizando, longe disso, as dezenas de milhares de pessoas que hoje movimenta. Era uma festa simples de aldeia, com meia dúzia de tendas alinhadas a um canto do Passal. Tudo o que o autor descreve relativamente ao que já se tinha passado até àquela hora deve-lhe ter sido contado por habitantes locais ou por quem conhecia a tradição de Sobrado.
É, além disso, interessante observar que, nesta festa, Gallop se sente sobretudo atraído pelos Mourisqueiros. De resto, seguindo uma tradição que também se encontrou em Sobrado, sempre designa esta festa por Mouriscada. Os Bugios são descritos como primitivos e rudes, menos marciais, aprumados e organizados do que o adversário.
Nas danças não se nota nada de especialmente relevante comparativamente com o que hoje ocorre. Apenas chama a atenção a “figura cómica vestida de fato-macaco azul e com uma máscara feita de cortiça”, que seguia o Reimoeiro pelo lado de fora das filas “imitando todos e cada um dos seus movimentos”. Esta figura cómica há muito desapareceu, se é que não se tratou de um caso isolado daquele ano.
Quanto aos trajes, é de referir os fatos de cor clara e os cintos vermelhos dos Mourisqueiros, bem como os trajes dos Bugios, muitos deles alugados em figurinistas de teatro do Porto. De destacar o caso do Velho da Bugiada que levava “um manto eclesiástico de rico damasco encarnado debruado a ouro, com uma dobra sobre os ombros”, escolhido “de entre as vestes ou adereços da igreja”.
As máscaras são um terreno importante em que se registam diferenças relativamente à atualidade. Não é que Galllop faça uma grande descrição sobre como elas eram. Apenas ficamos a saber que algumas representavam caras de animais. Nesta matéria, o que é de facto uma novidade é que o líder da Bugiada só colocava a máscara aquando da Prisão do Velho. Vale a pena chamar aqui a atenção para o facto de que o colocar a máscara significava que um outro momento/tempo iria ter lugar. Isso ainda hoje acontece, através da mudança de máscara, na parte da tarde.
Outra diferenças pode ser encontrada no texto aqui citado: o facto de haver dois embaixadores a correr as embaixadas (e não um, como vem acontecendo nas últimas décadas).
Rodney Gallop aventura-se nos difíceis caminhos da interpretação dos significados desta tradição popular. A sua visão tem a vantagem de provir de um profundo conhecedor das tradições musicais e de dança de diferentes partes do mundo. Destaca-se aqui a sua ideia de que as tradições do dia de S. João de Sobrado não nasceram todas ao mesmo tempo, antes são “um aglomerado de diferentes aspectos, os quais nem todos estiveram sempre ligados”. A outra ideia é que, para além daquilo que se vê – das danças e das lutas – o que se pretende tematizar e representar são os mistérios da sementeira e da fertilidade da terra, a luta pela subsistência, a morte e a ressurreição.
O autor sugere também que aquilo que se vê nesta freguesia pode ter tido inspiração em tradições como o S. João (ou o Corpus) de Braga, nas danças de espadas que surgem em várias outras tradições portuguesas e estrangeiras (recentemente estudadas por Barbara Alge) ou em tradições anteriores, que tenham dado origem a todas estas .
Nos adereços dos Bugios vê Gallop vestígios de “agrupamentos medievais de dançarinos” (assim como poderíamos dizer que os adereços dos Mouriscos se ligam a algumas fardas das tropas napoleónicas dos inícios do século XIX).
Seja como for, é tudo isto que, para este autor inglês, faz do S. João de Sobrado “um dos mais notáveis rituais que sobrevivem na Europa moderna".
(Crédito da foto: Marjoke Krom , 2007)
Importa observar, antes de mais, que o autor só viu uma parte da festa. Chegando a Sobrado, naquele S. João de 1932 (vai fazer agora 80 anos), pelas 18 horas, decorria aquela que hoje é conhecida como a Dança do Doce. A festa, tendo um certo aparato, era uma tradição pacata, não mobilizando, longe disso, as dezenas de milhares de pessoas que hoje movimenta. Era uma festa simples de aldeia, com meia dúzia de tendas alinhadas a um canto do Passal. Tudo o que o autor descreve relativamente ao que já se tinha passado até àquela hora deve-lhe ter sido contado por habitantes locais ou por quem conhecia a tradição de Sobrado.
É, além disso, interessante observar que, nesta festa, Gallop se sente sobretudo atraído pelos Mourisqueiros. De resto, seguindo uma tradição que também se encontrou em Sobrado, sempre designa esta festa por Mouriscada. Os Bugios são descritos como primitivos e rudes, menos marciais, aprumados e organizados do que o adversário.
Nas danças não se nota nada de especialmente relevante comparativamente com o que hoje ocorre. Apenas chama a atenção a “figura cómica vestida de fato-macaco azul e com uma máscara feita de cortiça”, que seguia o Reimoeiro pelo lado de fora das filas “imitando todos e cada um dos seus movimentos”. Esta figura cómica há muito desapareceu, se é que não se tratou de um caso isolado daquele ano.
Quanto aos trajes, é de referir os fatos de cor clara e os cintos vermelhos dos Mourisqueiros, bem como os trajes dos Bugios, muitos deles alugados em figurinistas de teatro do Porto. De destacar o caso do Velho da Bugiada que levava “um manto eclesiástico de rico damasco encarnado debruado a ouro, com uma dobra sobre os ombros”, escolhido “de entre as vestes ou adereços da igreja”.
As máscaras são um terreno importante em que se registam diferenças relativamente à atualidade. Não é que Galllop faça uma grande descrição sobre como elas eram. Apenas ficamos a saber que algumas representavam caras de animais. Nesta matéria, o que é de facto uma novidade é que o líder da Bugiada só colocava a máscara aquando da Prisão do Velho. Vale a pena chamar aqui a atenção para o facto de que o colocar a máscara significava que um outro momento/tempo iria ter lugar. Isso ainda hoje acontece, através da mudança de máscara, na parte da tarde.
Outra diferenças pode ser encontrada no texto aqui citado: o facto de haver dois embaixadores a correr as embaixadas (e não um, como vem acontecendo nas últimas décadas).
Rodney Gallop aventura-se nos difíceis caminhos da interpretação dos significados desta tradição popular. A sua visão tem a vantagem de provir de um profundo conhecedor das tradições musicais e de dança de diferentes partes do mundo. Destaca-se aqui a sua ideia de que as tradições do dia de S. João de Sobrado não nasceram todas ao mesmo tempo, antes são “um aglomerado de diferentes aspectos, os quais nem todos estiveram sempre ligados”. A outra ideia é que, para além daquilo que se vê – das danças e das lutas – o que se pretende tematizar e representar são os mistérios da sementeira e da fertilidade da terra, a luta pela subsistência, a morte e a ressurreição.
O autor sugere também que aquilo que se vê nesta freguesia pode ter tido inspiração em tradições como o S. João (ou o Corpus) de Braga, nas danças de espadas que surgem em várias outras tradições portuguesas e estrangeiras (recentemente estudadas por Barbara Alge) ou em tradições anteriores, que tenham dado origem a todas estas .
Nos adereços dos Bugios vê Gallop vestígios de “agrupamentos medievais de dançarinos” (assim como poderíamos dizer que os adereços dos Mouriscos se ligam a algumas fardas das tropas napoleónicas dos inícios do século XIX).
Seja como for, é tudo isto que, para este autor inglês, faz do S. João de Sobrado “um dos mais notáveis rituais que sobrevivem na Europa moderna".
(Crédito da foto: Marjoke Krom , 2007)
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